Home
Sede
Sítio
Quem Somos
Cadastre-se
Fale conosco

ENSINAMENTOS DE LAMA GANGCHEN RINPOCHE

ENSINAMENTOS DE LAMA GANGCHEN RINPOCHE NO SÍTIO VIDA DE CLARA LUZ em tibetano, traduzidos para o português por Lama Michel Rinpoche, 12 de NOVEMBRO DE 2006.


Estive pela primeira vez no Brasil há dezenove anos. As atividades no Brasil começaram, principalmente, com o Centro de Dharma em 1988. Durante esse tempo, muitas coisas aconteceram, muitas coisas foram criadas e realizadas.

Tudo o que foi realizado nesses dezoito anos não dependeu apenas de minhas palestras, ensinamentos, ou do meu esforço. Mas, principalmente, porque houve muitos amigos, muitas pessoas que colocaram muito esforço durante todos esses anos e, trabalhando juntas, fizeram ações concretas.

Se olharmos mais a fundo, não foi simplesmente o fato de terem trabalhado juntas e colocado esforço. Houve uma harmonia e motivação mais profunda no trabalho realizado durante esses anos.

Não é comum, ao dizer uma coisa para alguém, que ela o aceite de imediato, com entendimento e compreensão. Isso não é nada fácil de acontecer.

Na primeira vez em que estive no Brasil, quando fui a Campos do Jordão com um pequeno grupo de pessoas para um retiro, a Bel logo me disse: "Tenho um terreno aqui, onde poderíamos fazer juntos alguma coisa..." Ela já estava colocando a idéia de construir alguma coisa como o Sítio Vida de Clara Luz.

Podemos chamar isso de karma, algo que já havia sido criado no passado e que naquele momento estava "acordando". Ou seja, algo com uma "mesma intenção" que estava despertando. São causas sutis que já estavam dentro de sua mente sutil e que naquele momento haviam acordado. Podemos chamar essas idéias e sentimentos de imprints positivos, marcas positivas no contínuo mental que estavam dormindo e naquele momento amadureceram e acordaram. Pode-se dizer também que foi uma interdependência positiva que se criou naquele momento.

Poderíamos explicar isso de uma forma mais longa se entrássemos nos detalhes de quais eram essas causas sutis. Mas esse seria um assunto muito longo e agora não é o caso de entrarmos nesses detalhes. O importante é que, do ponto de vista da ciência interior, foram criadas muitas formas diferentes de causas e condições para que tudo o que aconteceu até hoje pudesse ter ocorrido.

Neste sentido, há dezenove anos, quando estive no Brasil pela primeira vez, já se criaram condições de uma interdependência positiva. Depois que fundamos o Centro de Dharma da Paz, que existe até hoje, Bel começou a falar durante muito tempo sobre o seu projeto do Vida de Clara Luz. Até que então, em 2001, o sítio foi comprado e várias pessoas começaram a vir trabalhar aqui com a terra junto com Pete, que trouxe a Permacultura. Assim, gradualmente, foi-se gerando a interdependência positiva nesse local.

Em 2002, foram trazidas para cá as estátuas de Borobudur da Indonésia. Há uma forte interdependência positiva nisso, porque os ensinamentos budistas sobre a mente de grande amor altruísta, a Bodhichitta, chegaram ao Tibete através da Indonésia. Eles foram trazidos ao Tibete por um grande mestre chamado Atisha, que recebeu esses ensinamentos na Indonésia.

Já que não pudemos trazer mestres da Indonésia para cá, então trouxemos suas estátuas: os Cinco Curadores Supremos, o Buddha da Compaixão Tchenrezig, o mandala e a stupa de Borobudur.

Trazer essas estátuas sagradas teve um significado muito especial e gerou uma grande interdependência positiva.

Depois disso, foram construídas aqui as diferentes instalações: o gompa, a hospedaria, o refeitório, as casas de moradia. Durante esse tempo, houve dificuldades, porque problemas sempre existem, mas de modo geral tudo aconteceu de uma forma suave. A cada dificuldade que surgiu, aprendeu-se uma nova lição e assim todos se tornaram cada vez mais fortes.

Desde a criação deste local, há a idéia de poder acolher pacientes em fase terminal. No entanto, até agora a lei brasileira não apoiava os cuidados paliativos. Mas como a interdependência positiva continua sendo criada, recentemente foi aprovada uma lei que permite que um paciente não tenha necessariamente que ir para uma UTI. (todos batem palmas).

Isso é algo que tem sido esperado pelo Vida de Clara Luz há muito tempo. No momento em que as condições vão se criando de um lado, do outro lado acontece algo que aparentemente não está diretamente interligado... Por exemplo, o fato do governo ter criado esta lei pode ter a ver com o que tem sido feito aqui?

Mas se observarmos bem, apesar de uma coisa não estar ligada diretamente com a outra, elas estão conectadas pela interdependência positiva.

Desta forma, todo o trabalho que tem sido feito aqui, como os Dias de Plantio Coletivo, vai conectando uma coisa positiva a outra.

Outro exemplo acaba de ser criado no Estado de São Paulo: um fórum permanente das religiões, um fórum inter-religioso, junto à Secretaria da Justiça. Isso é algo que começamos a fazer desde 1995, promovendo vários encontros inter-religiosos, como aqueles no Clube Hebraica.

Plantamos as sementes no passado e o que aconteceu agora não foi através de nossa ação direta, foi a partir da ação de outras pessoas, neste caso do governo do Estado de São Paulo, mas as nossas causas estão lá. As coisas não estão completamente não-relacionadas, ao contrário.

É verdadeiramente incrível observar como as coisas estão relacionadas umas com as outras, como tudo acontece com certa sincronia, de forma interdependente. Trata-se de um "movimento telepático", um movimento natural que não somos capazes de perceber.

O nome deste local é "Vida de Clara Luz". Qual é o significado, qual é o objetivo do Vida de Clara Luz? Isso não é uma coisa simples, é uma questão muito grande que explicarei aos poucos.

O Vida de Clara Luz existe dentro de várias condições muito especiais que se criaram. Entre elas, o fato de eu (Lama Michel) ter nascido no Brasil e de termos um mestre, Lama Gangchen, que não é como muitos mestres que aparecem uma vez, fazem uma grande palestra para mil pessoas e depois nunca mais ninguém o vê. No máximo, pode-se adquirir um livro ou um DVD.

Rinpoche sempre teve uma abordagem diferente: de estar junto, viver a vida junto, passar tanto os momentos difíceis como os bons juntos. Quando temos de chorar, choramos juntos; se temos que discutir, discutimos juntos, assim como compartilhamos os momentos de felicidade. Desta forma, estamos juntos em todos os momentos, aprendendo o caminho espiritual.

Rinpoche não é um mestre de "oi e tchau" ou "fiquem com seus problemas que eu não tenho nada ver com isso, pois já disse o que eu tinha que dizer." Ao contrário, ele está sempre perto de nós, a cada momento, em cada dificuldade. Sempre foi assim e sempre será. Afinal, sempre temos interferências, dificuldades que temos de saber superar.

Este é um projeto muito importante e com um significado muito profundo. Mas há pessoas que, pela própria ignorância, pensam apenas em si próprias e não vêem a grandiosidade deste projeto, por isso criam interferências negativas. Elas estão apenas pensando em resolver seu pequeno problema, seja financeiro ou de qualquer outro tipo.

Há ainda aqueles que pensam: "Olha aquele bando de gente rica fazendo sei lá o quê". Guiados pela própria ignorância, não chegam a compreender o verdadeiro significado e benefício do que está sendo feito aqui. Por isso, criam interferências e dificuldades que devem ser superadas. A Bel e o Pete colocaram toda a energia deles aqui, dinheiro, tempo. Por isso, diante das dificuldades não devem jamais afirmar "não podemos fazer mais nada".

De fato, diante de muitas interferências negativas, eles podem chegar ao ponto de querer dizer: "Quer saber de uma coisa? Deixa pra lá tudo isso, vou cuidar da minha vida, não vou continuar fazendo tudo isso". Mas não pode ser assim, o esforço deles tem que continuar. Por isso, é importante que todos juntos se mantenham estimulados de forma pura - com emoção pura, com um sentimento positivo - para que tudo aqui seja sempre realizado da melhor forma possível. Isso requer o envolvimento de todos.

Buddha buscou a iluminação com o objetivo de abandonar completamente todos os venenos mentais, de desenvolver ao máximo seu próprio potencial e suas qualidades para adquirir a percepção correta de todos os fenômenos. Quando Ele estava prestes a atingir a Iluminação, abandonou qualquer coisa que lhe tirasse sua atenção, como os prazeres do corpo, e dedicou-se apenas à concentração de sua mente. Nesse momento, ocorreram várias interferências: seres que não entendiam Sua grandiosidade começaram a criar problemas para tirá-lo de seu estado de meditação por meio de ações violentas. Mesmo assim, Buddha nunca perdia seu objetivo e continuava meditando. Houve também aqueles que tentaram distraí-lo por meio de objetos de desejo, emanando mulheres muito bonitas para seduzi-lo de todas as formas: elas cantavam, dançavam, tocavam instrumentos à Sua frente, mas, mesmo assim, Buddha sempre continuava focado em seu objetivo de uma maneira muito clara e precisa.

Até que Seu próprio filho veio até ele pedindo: "Volte para casa, deixe de lado tudo isso...". Mas Buddha não deu a menor importância, continuou meditando de modo muito seguro. Da mesma forma, devemos aprender a não desanimar diante de qualquer forma de dificuldade ou interferência. Ao contrário, devemos criar mais energia, mais força, para realizar nosso objetivo.

Se observarmos a dedicação de todos aqui, da Bel, do Pete, e de todos os demais, mesmo diante de violências e de dificuldades maiores todos têm continuado com seus esforços dizendo, "a gente vai em frente, a gente não desanima". Se não reconhecermos que esta motivação trata-se de uma mente pura, onde mais podemos encontrá-la?

Alguém pode dizer, "eles não têm motivação pura". Por quê? Por que estão dormindo? Por que estão cansados? Não existe uma boa uma razão, uma boa desculpa para dizer que essa não seja uma motivação pura.

Isso vale para qualquer um de vocês que, diante de dificuldades, ainda assim tenha a motivação pura de querer continuar, e não apenas de continuar, mas de continuar e colocar esforço. Isso é uma motivação pura.

Por exemplo, a Fernanda, minha irmã, que está aqui hoje. É muito difícil uma jovem ter essa atitude de estar aqui com calma, ouvindo. Mas, mesmo assim, ela está aqui ouvindo com o coração aberto. Isso também é um exemplo dessa motivação pura.

Uma outra dificuldade que encontramos, não só no Brasil, mas em todo o Ocidente, advém do fato de que aquilo que é proposto pelo Vida de Clara Luz não fazer parte da nossa cultura.

No Ocidente, quando uma pessoa está numa fase terminal, vai direto para o hospital. Não existe a cultura de cuidar, tal como a proposta do Vida de Clara Luz.

Por não fazer parte da cultura, surge uma grande dificuldade em se fazer algo, aparecem medos, dúvidas, e tudo isso acaba afastando algumas pessoas.

Para trabalhar em algo que não faz parte da cultura é preciso muita coragem. A Bel teve essa grande coragem, de acreditar em algo, de fazer algo que está completamente fora do contexto cultural onde nos encontramos.

É possível que, muitas vezes, as pessoas percebam que se trata de algo positivo, significativo, e queiram participar. Mas ao se aproximarem, não se sintam à vontade, porque não é exatamente aquilo a que estão acostumadas. Por um lado querem ajudar, mas, por outro, não sabem exatamente como. Isso é porque não faz parte da própria cultura, não é por nenhuma outra razão.

É importante conseguir superar essas barreiras culturais.

O Brasil é considerado um país cristão, mas embora a cultura da religião cristã tenha chegado ao Brasil há muitos e muitos anos, ela não é original do Brasil. A cultura espiritual original do Brasil era a cultura xamânica. No entanto, hoje em dia, o cristianismo é aceito como se fosse a verdadeira cultura espiritual do Brasil, mas, na verdade, não é. Da mesma forma, não há nenhuma razão para ver como algo estranho e distante uma cultura diferente como é a cultura budista. O budismo se adapta a qualquer profissão, a qualquer estilo de vida.

Originalmente, o budismo não era uma religião. Buddha quis compartilhar a própria experiência e o modo como chegar a essa experiência ensinando a não-violência.

Na Índia, existiam muitas religiões baseadas em violência, que sacrificavam animais, faziam oferendas de animais, etc. Isso era muito difundido na Índia naquela época. A cultural local era a cultura da religião, por isso, quando Buddha ensinou a não-violência, as pessoas criaram uma fé religiosa em Buddha e no que Ele dizia. A partir daí, criou-se uma religião, pois tratava-se de uma cultura baseada em religiões.

Inicialmente, Buddha não tinha a intenção de criar uma religião. O que Ele fez foi compartilhar a própria experiência e como chegar a essa experiência, que na verdade era uma "pesquisa interior". Buddha foi um cientista do mundo interior.

A não violência, da forma que foi exposta por Buddha, a interdependência de todos os fenômenos e o fato de que em todos os fenômenos existe o espaço, que o espaço está presente em tudo, são alguns dos temas explicados por Buddha que até então nenhuma outra religião havia citado. Como Buddha dizia coisas incríveis, as pessoas logo geravam fé nele e passaram a chamá-lo de "Ó Grande Buddha". Desta forma, acabaram criando uma fé "religiosa", e a partir disso, o budismo surgiu como uma religião.

Se analisarmos bem, perceberemos que o budismo não é uma religião, mas sim um conjunto de idéias positivas e construtivas para esse mundo. Apesar das idéias de Buddha serem o resultado de suas próprias experiências, estão sempre de acordo com uma visão cientifica.

Qualquer pessoa que analisar os ensinamentos de Buddha com uma visão cientifica correta não vai encontrar contradição. Einstein já dizia que se alguma religião poderia acompanhar o desenvolvimento da ciência, seria o Budismo. Hoje em dia, estão cada vez mais descobrindo novas coisas em relação a física quântica que Buddha já havia dito. Por isso, os cientistas hoje em dia estão dando grande valor ao Budismo e investigando o que Buddha concluiu no passado. Neste sentido, Buddha foi, verdadeiramente, um cientista interior.

Buddha criou a comunidade espiritual, conhecida por Sangha. Ela funcionava de forma completamente democrática. Há 2.500 anos, esta foi a primeira forma de democracia.

Buddha nunca tomava uma decisão sozinho. Primeiro, o problema era compartilhado com a comunidade espiritual, e todos tomavam a decisão juntos. Buddha nunca foi autoritário na forma de ensinar, nunca tentou impor a sua visão.

Por exemplo, quando Buddha ensinou sobre a visão correta da realidade, a vacuidade. Primeiro, Ele deu vários ensinamentos para seus discípulos e depois, no momento em que estava no estado de onisciência gerado pela meditação unidirecionada na realidade dos fenômenos, ou seja, na visão perfeita da realidade, ele indiretamente incentivou seus principais discípulos, Shariputra e Tchenrezig, a dialogarem sobre a experiência deles em relação à vacuidade. Dessa maneira, Buddha analisou se o que eles estavam discutindo era ou não correto. E, depois, quando terminaram essa discussão, Buddha despertou de seu estado de profunda meditação e disse: "É assim mesmo, o que vocês disseram é correto." Essa é a origem do conhecido Sutra do Coração.

Desta forma, Buddha dava o espaço para a opinião de seus discípulos em seus ensinamentos. Afinal, se eles não tivessem tido a verdadeira compreensão de seus ensinamentos, não poderiam dar continuidade à linhagem de realizações após sua morte.

Em junho de 2003, Lama Gangchen trouxe as Sagradas Relíquias de Buddha Shakyamuni para abençoar este local. Essas Relíquias são 12 pedaços de ossos do próprio Buddha Shakyamuni. Como elas chegaram até aqui? Depois de sua morte (no ano 486 a.C.) Buddha foi cremado. Suas cinzas juntamente com esses ossos remanescentes foram colocadas em oito stupas (relicários), todos feitos exatamente da mesma forma. Após dois séculos, Rei Ashoka, um imperador que muito contribuiu para o desenvolvimento do budismo na Índia, abriu sete dessas stupas. Ao ver que todas elas encontravam-se da mesma maneira, deixou a oitava intacta e distribuiu as demais entre os reinados budistas que haviam na época, como a Tailândia, a Birmânia e Sri Lanka.

Estas relíquias foram reencontradas quando os templos destes países passaram por reformas. Dentro dos relicários estava escrito que elas eram as cinzas de Buddha e como foram distribuídas desta forma rei Ashoka.

Ao todo foram reunidos 12 pedacinhos de ossos. Uma vez, cuidadosamente analisados e comprovado que eles eram, de fato, da época de Buddha, o governo da Tailândia presenteou as relíquias às Nações Unidas como uma forma de oferecê-las para todos os países do mundo, e, também, como um símbolo de paz, em agradecimento pelo reconhecimento da ONU pelo dia do Vesak - quando se comemora o nascimento, iluminação e morte de Buddha.

Antes que as relíquias fossem colocadas de uma forma permanente nas Nações Unidas, elas visitaram, como uma peregrinação, 31 paises, entre dos quais 10 foram eventos organizados por nós. Por isso, quando as relíquias estavam no Brasil, foi possível trazê-las até aqui, ao Sítio Vida de Clara Luz.

E o que isso quer dizer? Quer dizer que essa terra, aqui onde estamos agora, foi abençoada por Buddha. É como se Buddha tivesse estado aqui e abençoado essa terra. Não estamos falando de ter fé cega sobre esta bênção, mas sim de algo que podemos provar até tendo uma atitude científica. Um dia, será possível provar a existência dessas bênçãos.

Tanto o recipiente, o meio ambiente, como o seu conteúdo, foram abençoados. Na verdade, o recipiente o que é? É o meio ambiente. O Rinpoche está dizendo que mesmo a terra aqui é abençoada. Por isso, as pessoas, os seres, os animais que vierem a este lugar também serão abençoados. Todos os pacientes e pessoas que trabalharem e visitarem este local serão abençoados. E o que essas bênçãos trazem? Elas nos ajudam em nossa transformação interior positiva. Isso é algo muito importante e que vai continuar para sempre. Desta forma, podemos dizer que é como se essa terra em si mesma tivesse se transformado numa relíquia.

As relíquias de Buddha foram trazidas para cá em segredo, porque naquele momento não era possível fazê-lo de forma aberta. Mas nesse momento não há mais porque manter o fato em segredo.

Por quê foram trazidas para cá? Porque Lama Michel e eu queremos sempre dar o melhor para o Vida de Clara Luz.

Todos os anos, eu venho para cá, faço as rezas, mantras, abençôo este local. Mas, com a visita das relíquias, tive a oportunidade de trazer a presença de Buddha com Seu próprio corpo. As relíquias de Buddha não são apenas pedacinhos de ossos. Desta forma, foi como se o próprio Buddha tivesse vindo a este local e colocado seus próprios pés nesta terra. Isso é algo muito importante e que deve ser lembrado agora. Por isso, não deve continuar em segredo e deve ser escrito numa placa com o registro desta visita. Este dia não é só histórico, mas de grande importância do ponto de vista espiritual.

Uma vez que este local foi abençoado dessa forma, todos os seres que vierem aqui serão automaticamente abençoados. Até mesmo o passarinho ou um pequeno inseto que morrer aqui será abençoado. Não estou dizendo que ele vai atingir a iluminação, mas sim que irá continuar num caminho positivo. E o que se entende por um caminho positivo? Um caminho que o leve para a liberação do sofrimento, para uma vida melhor do ponto de vista interior. É claro que se há esse benefício para um passarinho, uma minhoca, o que for, ele existe para uma pessoa também. Mas não é apenas para o momento da morte...

Buddha foi um cientista do mundo interior, e tinha o objetivo de transformar os quatro principais processos da vida, ou seja, o nascimento, o envelhecimento, a doença e a morte.

Não há nada mais importante do que reconhecer a preciosidade dessa vida humana. Em tibetano, há um termo próprio para dizer "o precioso corpo humano". Porque é por meio dele que iremos nos libertar dos sofrimentos que estamos agora completamente amarrados. Devido aos venenos mentais da ignorância, da aversão e do desejo, geramos todos os sofrimentos do nascimento, do envelhecimento, da doença e da morte.

Por isso, Buddha dedicou todos os seus esforços para transformar essas quatro passagens da vida numa experiência sem sofrimento. Buddha não fez isso para apenas Ele, mas para todos quando compartilhou suas descobertas e realizações de um modo que qualquer pessoa, seja ela religiosa ou não possa compreender sua visão. Qualquer pessoa que tenha ou não uma visão filosófica pré-construída e observe Buddha, automaticamente vai sentir Buddha perto de si. Por quê? Porque quando alguém faz algo diretamente para nós, sentimos essa pessoa perto de nós.

Por isso, mesmo em países que não eram budistas, as Relíquias de Buddha foram recebidas com muito amor, pois havia uma grande abertura por parte de todos.

Por quê? Porque quando alguém faz algo para nós, é isso que a gente sente. Por exemplo, quando estivemos no Quênia, na Tanzânia, na África, países nos quais nem se sabe quem foi Buddha, havia esse sentimento de aproximação e união. Quando alguém nos oferece algo de coração aberto, automaticamente nos sentimos próximos desta pessoa.

Para mim também foi uma grande experiência poder levar essas Relíquias a esses dez países. Eu fiquei muito feliz ao ver a reação tão positiva das pessoas não-budistas... foi muito incrível!

Gerar uma felicidade espontânea, quer dizer, mover positivamente a mente de uma pessoa, é algo muito, muito difícil. Fazer alguém sofrer é muito fácil, mas dar felicidade verdadeira é uma coisa muito difícil. As relíquias de Buddha trouxeram uma grande felicidade para um número enorme de pessoas. Talvez elas nem soubessem dizer por que se sentiam felizes. Isso, para mim, foi mais uma confirmação da grandiosidade de Buddha. Isso fez com que aumentasse ainda mais a minha fé.

O objetivo do Vida de Clara Luz é o mesmo de Buddha: poder ajudar a transformar positivamente os quatro momentos de grande transformação em nossa vida, o nascimento, o envelhecimento, a doença e a morte.

Por exemplo, uma criança que nascer aqui vai ter uma benção especial, terá um futuro especial. Uma pessoa que vier doente para cá será ajudada a diminuir o sofrimento de sua doença. A mesma coisa com relação ao sofrimento do envelhecimento, que começa bem antes da velhice. Sem falar do sofrimento da morte, que é o maior sofrimento que se vive durante a vida. Conseguir superar e fazer com que alguém morra sem sofrimento é algo também muito especial, por isso rezo todos os dias para que o Vida de Clara Luz possa verdadeiramente realizar seus objetivos de transformar esses quatro momentos da vida em algo positivo, construtivo.

O mais importante que eu gostaria de dizer é que de fato a missão, o significado do Vida de Clara Luz, é muito grande, não é uma coisa pequena. Do ponto de vista organizacional, para resolver as várias dificuldades e problemas que possam haver, também não deve tudo ser colocado na cabeça de uma só pessoa, nesse caso a Bel. Não deve tudo ser colocado em cima dela para um propósito tão grande quanto esse. Não é um propósito pessoal, único dela, mas é um propósito que envolve muitas pessoas. Já temos um pequeno grupo, mas ele deve crescer cada vez mais. Todos juntos devem se responsabilizar para que isso aconteça.

A gente vive no Samsara, problemas existem e vão sempre existir. Se tivermos que lidar sozinhos com os problemas, as coisas ficam mais pesadas demais. Por isso, precisamos nos unir para encontrar soluções para todos os obstáculos, seja de segurança ou do que for.

Uma das dificuldades com que temos de lidar hoje em dia é o fato que a sociedade na qual vivemos hoje é guiada pelo "deus dinheiro". Normalmente, ninguém gosta de falar em lidar com questões que envolvem dinheiro. Mas temos que aprender a lidar positivamente com o dinheiro.

Se estivéssemos vivendo em tempos como do passado, seria diferente. Antigamente, no Tibete, na Índia, no Nepal, quando alguém queria seguir o caminho espiritual, simplesmente ia para um lugar de retiro na montanha. Hoje em dia, mesmo uma pessoa que tenha uma pequenina casa de retiro na montanha, tem que pagar impostos... hoje em dia todo mundo tem que estar registrado, tem que ter documentos... antigamente não havia nada disso. Por isso, quem quisesse seguir o próprio caminho espiritual e não tinha (?) Querendo ou não, gostando ou não, temos que estar sempre nos relacionando com a matéria, com o dinheiro. Por isso, não devemos criar preconceitos em lidar com o dinheiro. Temos de aceitá-lo e criar uma relação positiva com ele também.

Devemos ter dois sentimentos pelo Vida de Clara Luz: um é sentir que aqui é a nossa própria casa individual, e o outro é que é uma casa coletiva. É muito importante desenvolver esses dois sentimentos.

Quando eu digo que devemos nos sentir aqui como se estivéssemos em nossa própria casa, o que isso quer dizer? Quer dizer que devemos ter uma missão juntos. Uma missão clara é fazer algo, algo que ainda não foi feito, algo novo. Quando a gente olha qual é a missão do Vida de Clara Luz, vê que é uma coisa nova, que não foi feita antes. Então é uma missão para a qual temos de nos unir para realizá-la. Quando reconhecemos sua importância, sabemos a preciosidade de colocarmos nossos esforços para oferecer algo verdadeiramente útil para o mundo. Então é isso, principalmente, o que eu gostaria de dizer.

Pelo poder da verdade,
Com a atenção de todos os seres humanos,
Que a cultura de violência seja transformada em cultura de não violência.
Cultura de paz agora e sempre.
Efeitos colaterais não violentos, efeitos colaterais positivos agora e sempre.
Efeitos colaterais positivos são o melhor para a saúde física e mental.
Efeitos colaterais são o melhor para o desenvolvimento espiritual.
Saúde física e mental agora e sempre.
Paz no meio ambiente interno e externo agora e sempre.
Paz interior e paz mundial agora e sempre.
A paz interior é a fundamento mais sólido para a paz mundial.
Amor e compaixão agora e sempre.
Harmonia e felicidade agora e sempre.
Novo êxtase e vacuidade agora e sempre
Vida de Clara Luz agora e para sempre com sucesso!

Tashi Delek!

 

Vida de Clara Luz - Sede Rua Aimberê, 2008 - Perdizes - contato@vidadeclaraluz.com.br