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LAMA GANCHEN RIMPOCHE NO SITIO DE CLARA LUZ
02 DE DEZEMBRO DE 2007

Tashi Dele!

Bem-vindos todos à nossa família do Sítio Vida de Clara Luz.
Estamos aqui para nos ajudarmos mutuamente das mais diversas maneiras.
Desde 2002, as atividades do Vida de Clara Luz oferecem uma educação não-formal sobre como podemos nos educar mentalmente.

Essa forma de aprendizado não-formal começou com Buddha, na Índia, há mais de dois mil e quinhentos anos. Ela é uma maneira preciosa para aprender e colocar em prática os ensinamentos de Buddha.

Os ensinamentos do budismo não são só para os budistas ou para serem praticados apenas dentro de um contexto religioso. Eles também podem ser aplicados num nível educacional ou terapêutico, para cuidar do nosso ambiente interno e externo e para nos ajudar a ter saúde física e mental, gerando paz interna e externa.

Os ensinamentos de Buddha nos ajudam de maneira prática e direta a lidar com muitos de nossos problemas atuais, sejam eles causados pelos desequilíbrios climáticos ou pela cultura de violência. Eles trazem uma orientação prática sobre como transformar a cultura de violência numa cultura de não-violência. Não apenas por meio da meditação, mas também por uma maneira de viver orientada sob um ponto de vista científico.

Isso é possível porque o budismo também respeita as demais culturas, religiões e ambientes. Por que isso é possível? Porque o mais importante do budismo é termos uma mente aberta, uma mente ampla. Mas, se tivermos uma mente fechada, então teremos sempre mais e mais problemas e não conseguiremos resolvê-los.

Uma coisa é o que o budismo propõe e outra coisa é quando as pessoas vão pôr em prática seus ensinamentos. Naturalmente, enquanto as pessoas expressam uma visão pessoal do budismo, podem surgir também outras dificuldades. Afinal, é possível que, enquanto nos expressamos de uma maneira bloqueada, surjam problemas. Como somos seres humanos, tudo pode ocorrer, quer dizer: podemos colocar em prática o budismo de maneira errônea.

Nós somos profissionais de diversas áreas trabalhando em níveis e dificuldades diferentes, mas estamos todos juntos. De modo semelhante, o budismo está junto com a ciência. Albert Einstein já havia visto essa união do budismo com a ciência. O ponto de semelhança entre o budismo e a ciência é a percepção da interdependência, como os eventos estão interligados. Nós, budistas, somos cientistas internos, e os cientistas são os cientistas externos. Por isso, não devemos pensar que há algum tipo de desconforto entre nós e a ciência. Nós temos realmente muita sorte de poder encontrar o Dharma (os ensinamentos de Buddha) de maneira a podermos ser tocados por ele.

Aqui, no Sítio Vida de Clara Luz, estamos num lugar igual à Terra Pura. Estamos podendo acompanhar todo ciclo de vida das plantas, como elas nascem, crescem e morrem. Desta forma, associados com a filosofia budista, estamos aprendendo sobre nossos quatro grandes processos de transformação: como nascemos, envelhecemos, adoecemos e morremos.

A visão budista da Bel, unida à experiência de Permacultura do Pete, está nos proporcionando uma experiência direta desses ensinamentos. Assim, podemos observar os ensinamentos de Buddha através do ciclo das flores, da verduras, e entender como os fenômenos externos refletem os internos e vice-versa. É isso que estamos aprendendo.

Por exemplo, o que nós percebemos quando observamos a natureza é que a lei da continuidade é uma lei natural. Quer dizer ela existe independente de acreditarmos em reencarnação ou nas leis do karma. Então, quando compreendemos isso, tocamos a percepção dessa continuidade dentro de nós num sentido muito profundo, assim como os ensinamentos do Dharma.

Quando somos tocados desta forma, descobrimos algo em nós que nos cura e nos traz alegria. Talvez, se estivéssemos apenas sentados meditando, não poderíamos ser tocados nesse nível de percepção dos fenômenos, pois não seríamos capazes de perceber esses fenômenos por meio de uma experiência direta. Nós temos sorte por isso!

Isso tudo está relacionado com a manifestação de uma Vida de Clara Luz, em nossa vida.
Quando compreendemos isso, nossa vida ganha mais prazer, mais sabor. Por exemplo, hoje às 6 horas da manhã, quando abri a janela do quarto, vi o Pete regando as plantas. Eram 6 horas, portanto, a hora certa para regar as plantas: o Pete estava dando a mamadeira para os seus "bebês" logo cedo.
Só de observar sua dedicação já temos muito que aprender.

Em 2001, quando estive aqui pela primeira vez, não haviam tantas plantas como as que temos hoje. Há muitas árvores novas, vocês tem sorte de poder aprender sobre elas com o Pete, porque ele está sempre disposto a compartilhar o que sabe.

Eu observei que também há mais pássaros, e eles também estão trazendo muitas sementes de novas árvores para aqui. Os pássaros estão entendendo que aqui a é terra fértil, e por isso é possível as coisas crescerem. Os pássaros estão dando a sua contribuição porque estão sentindo que é bom para as sementes virem pra cá.

Hoje de manhã, quando estava rezando junto com a Bel e a Bebel, vimos pela janela um veadinho atravessando a montanha logo à nossa frente. Notei como ele estava relaxado, tranqüilo. Em geral,os animais correm quando estão num campo aberto porque têm medo de ser pegos... Por que faço esse comentário? Para lembrar que ele estava tranqüilo porque sentia que não havia violência. É isso que nós podemos sentir aqui também.

O Sitio Vida de Clara Luz é um local de refúgio. Assim como os animais podem aproveitar melhor aqui quando estão tranqüilos, nós também. Se aprendermos a olhar a nossa vida assim, vamos ter muito mais prazer, mesmo tendo muito para fazer. Porque assim tudo vai parecer fresco, novo. Se não vivemos com prazer, tudo parece sempre a mesma coisa, uma repetição contínua apenas de problemas. Vivemos com a sensação de estar só repetindo o mesmo sofrimento. Mas, quando começamos a sentir prazer naquilo que estamos fazendo, algo muda na hora.

Até mesmo quando estamos sofrendo, há algo que podemos fazer: podemos entender a dor e aprender muito com ela. Quando nos dispomos a entender a nossa dor, sentimos prazer ao encontrarmos um sentido nela, quer dizer, ao aprendermos algo com ela.

Todos os fenômenos da realidade são assim: eles existem conforme a nossa percepção. Se nós os usamos positivamente teremos prazer, mas se nós temos sempre uma visão negativa, vamos sempre sofrer.

O que chamamos de karma, a realidade de cada um, parece algo tão complicado, mas, em resumo, não é nada mais do que a maneira como usamos a nossa vida… como usamos nosso mundo dentro e fora de nós. É como nós nos usamos.

Se aprendermos a olhar a vida assim, de um modo mais simples, poderemos reconhecer mais facilmente se estamos tendo um aproveitamento positivo ou não de nossa vida.

Certa vez, Milarepa (renomado iogue da história do Tibete no século XI) ouviu um grande Gueshe explicando o que era Vinaya. Quando o mestre lhe explicou que Vinaya eram as leis de conduta do budismo, quer dizer, as regras de comportamento, ele achou muito complicado e lhe disse: "Olha, tudo isso é muito complicado. Para mim é assim: eu tenho ou não tenho paz dentro de mim. A minha lei é ter paz, esse é o meu Vinaya, esse é o meu compromisso."

Temos que compreender que a essência é simples. Não temos que complicá-la. Aqui, temos essa sorte de poder ter essa experiência por meio da visão do budismo da Bel unida ao conhecimento das plantas do Pete. Eles estão abertos para oferecê-la. Não é fácil encontrar um lugar tão aberto, onde as pessoas podem vir como se fossem as suas casas para compartilhar os seus conhecimentos. Achar essa abertura que temos aqui é raro, por isso temos sorte de estar todos aqui juntos.

Hoje, no café da manhã, conversei longamente com a Bel e o Pete a respeito do que eles estão fazendo. Pedi a eles que fizessem juntos um livro sobre a experiência de observar o crescimento natural das plantas unido à experiência com a visão do budismo. Isso é importante porque, na realidade, temos poucas oportunidades para observar a natureza em nosso cotidiano. Além disso, as plantas já estão tão contaminadas por químicas que não podemos mais nem mesmo observar o seu crescendo natural. Espero que todo grupo do Vida de Clara Luz possa trabalhar nesse registro para mostrar o processo do crescimento natural de uma forma educacional. O processo natural do nascimento, envelhecimento e morte das plantas é tão lindo e a gente mal o conhece.
Temos tantas informações sobre tudo, tantos filmes, fotografias, desenhos e slides, mas temos pouca coisa sobre isso, por isso eles devem fazer este livro para mostrar para as crianças da cidade e para todos que nem imaginam como ocorrem estes processos de vida e morte.

Eu mesmo nunca havia visto a flor da alface. Só conheci a flor da alface aqui no Sitio Vida de Clara Luz.

A primeira idéia do Sítio foi construir um hospice (uma casa para pacientes terminais). Na realidade o que quer dizer acompanhar os pacientes terminais? Superar o medo que temos da vida. Em outras palavras, estamos fazendo isso quando proporcionamos uma educação não formal para desenvolver a habilidade de lidar com a vida.

Muitas vezes queremos fazer alguma coisa pela sociedade, mas temos impedimentos criados pelas próprias leis do governo. Por exemplo, a Bel me disse que semana passada foi suspensa a resolução que estava liberando um paciente da obrigatoriedade de ir para a UTI. O Brasil tem esse problema, muitas vezes parece que vai pra frente e de repente, empaca.

Então, quando temos muitos impedimentos assim, temos que encontrar uma outra forma de colocar nossas idéias em prática. Com o governo é assim: quando queremos fazer alguma coisa, temos de nos encaixar dentro de toda uma formalidade. Mas, com a educação não-formal, podemos agir mais livremente. Tudo está crescendo e, como sempre digo no final de nossas rezas: "agora e sempre".

Os meus programas são desse jeito: agora e sempre. Às vezes, não posso expressar em palavras tudo que quero transmitir, por isso procuro por meu sentimento no que digo para poder dizer que estamos juntos agora e sempre. Se formos tocados pelo poder dessas palavras, essa verdade vai se tornar realidade.

Eu dou muito valor para as pessoas que estão comigo desde o início, porque elas souberam enfrentar muitas dificuldades e sempre têm mostrado capacidade de continuar e seguir em frente. Em geral, hoje em dia, em nossa sociedade moderna, quando mal aparece um problema, as pessoas já costumam largar tudo e querem ir embora. Só que assim elas nunca superam os seus problemas, porque estão sempre indo embora. Se temos problemas, temos que aprender a encará-los de frente: aprender a conversar e não simplesmente virar as costas e ir embora.

Nos tempos antigos, os monastérios costumavam fazer uma cerimônia que se chama So Djon. So quer dizer, recuperar e Djon, purificar. Algo semelhante a Ngal So que nos referimos à autocura. A cada 2 semanas eles se reuniam e falavam abertamente tudo o que estava acontecendo no próprio monastério.
Se falamos abertamente em grupo, evitamos que hajam fofocas e interferências. Infelizmente, hoje em dia, nos monastérios fazem as rezas do So Djon mas não estão mais dialogando em grupo. Temos que voltar a aprender a conversar em grupo. Por isso, quando temos um problema, a melhor coisa é abrir-se para conversar sobre ele. Talvez seja melhor começar conversando com poucas pessoas, esperar alguns dias até que nossa emoção se recupere e só depois abrir-se para o grupo.

Eu gosto muito desse método de esperar a emoção abaixar para poder falar sobre um assunto. Às vezes, espero muito tempo até sentir que a pessoa está pronta para escutar o que tenho para dizer.

Se observarmos bem, todos os problemas foram um dia pequenos antes de crescerem. Às vezes, basta uma palavra mal compreendida para gerar um grande problema. Por isso, precisamos estar atentos ao que dizemos. Por um lado, hoje em dia é estimulada a livre expressão, o que aparentemente parece uma coisa boa; por outro, acabamos nos deixando levar por tudo que é dito e nos tornamos muito suscetíveis à agressão alheia. Deixamos palavras rudes penetrarem em nós com muita facilidade. Uma palavra rude pode ser tão violenta como o tiro de uma arma. Pode destruir muito.

Nós temos, na nossa sociedade, dificuldade para aceitar sons positivos. Temos dificuldade de aceitar conselhos que podem nos ajudar. Então, por favor, não valorizem tanto os sons negativos e aceitem mais os positivos. Por isso, agora repitam comigo:

Pelo poder da verdade,
com a atenção de todos os seres humanos;
com as bênçãos de todos os seres sagrados,
Que o som violento seja transformado num som não violento,
num som positivo, agora e sempre.
Amor e compaixão agora e sempre,
com as bênçãos de Guru Buddha Shakiamuni.

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